Se você visita o Investigação Financeira talvez tenha percebido que o blog ficou silencioso nos últimos meses. A explicação é simples, embora inesperada para um espaço dedicado à criminalidade econômica: eu estava escrevendo um livro de história.
A Peleja de Lampião no Belém do Arrojado: resistência civil ao cangaço em Uiraúna/PB, escrito em coautoria com Marcelo Duarte Guilherme Estrela, reconstrói a tentativa de invasão da antiga vila de Belém do Arrojado, atual Uiraúna/PB, pelo bando de Lampião, em 15 de maio de 1927, e a resistência organizada por civis locais sob a liderança do subdelegado Nelson Furtado Leite (1).
À primeira vista, o tema parece distante da Investigação Financeira. Não há, no livro, tipologias de lavagem de dinheiro, rastreamento patrimonial, fluxos financeiros, criptoativos ou recuperação de ativos. Há cangaceiros, estradas de terra, depoimentos orais, fotografias antigas, mapas, arquivos judiciais, memória popular e uma igreja transformada em ponto de resistência.
Mas a distância entre livro e blog é menor do que parece.

Investigação antes do Adjetivo
Antes de ser financeira, digital, patrimonial ou criminal, a investigação é uma forma organizada de reduzir incertezas. Parte-se de vestígios incompletos, formula-se uma hipótese e se procura verificar sua consistência por meio de fontes independentes. Em outra postagem desse blog, escrevi que a investigação consiste na atividade de coleta e análise de dados, em atividade guiada pela formulação de hipóteses a partir de evidências (lógica abdutiva), com vistas ao desvendamento de um problema (2).
O investigador raramente encontra a verdade pronta; encontra, antes, documentos fragmentados, relatos parciais, registros contraditórios e lacunas que precisam ser tratadas com método. Foi exatamente isso que ocorreu na pesquisa para A Peleja de Lampião no Belém do Arrojado.
O objetivo inicial era modesto: escrever um artigo curto sobre um episódio preservado na memória de Uiraúna. Aos poucos, porém, a pesquisa cresceu. Surgiram depoimentos, fotografias, registros familiares, livros regionais, mapas, documentos judiciais e notícias antigas. O que parecia ser um pequeno artigo tornou-se um ensaio histórico; em seguida, revelou-se um livro.
A lógica empregada, no entanto, é familiar aos leitores deste blog. Não bastava repetir a tradição oral. Era necessário perguntar: quem disse? quando disse? com base em quê? há outra fonte que confirme? o relato é compatível com o espaço físico? a fotografia permite inferir posição, identidade ou armamento? o documento judicial confirma ou tensiona a memória coletiva?
Essas perguntas pertencem tanto à pesquisa histórica quanto à investigação criminal.
Fontes, Inferências e Hipóteses
Há, nesse ponto, um paralelo direto entre a investigação histórica e a investigação criminal. Ambas lidam com fatos passados que já não podem ser observados diretamente e que, por isso, precisam ser reconstruídos a partir de vestígios. O historiador encontra documentos, fotografias, registros paroquiais, notícias antigas, depoimentos orais e marcas preservadas no espaço; o investigador criminal encontra documentos bancários, mensagens, imagens, metadados, perícias, relatos testemunhais e fluxos patrimoniais. Em ambos os casos, o trabalho não consiste em escolher a versão mais sedutora, mas em submeter cada hipótese ao confronto com as fontes disponíveis.
A própria apresentação do livro explicita esse ponto ao aproximar a pesquisa científica do método do detetive, lembrando, com Umberto Eco (3), que se parte de indícios, formulam-se hipóteses e se verifica sua consistência por meio das fontes. No fundo, a pergunta é a mesma: diante de fragmentos dispersos, contraditórios e incompletos, qual reconstrução dos fatos é mais compatível com o conjunto das evidências? Um dos cuidados centrais do livro foi distinguir aquilo que as fontes permitem afirmar daquilo que apenas autorizam inferir. Essa distinção é essencial em qualquer investigação séria.
Na investigação financeira, por exemplo, um depósito bancário é um dado. A vinculação desse depósito a um beneficiário oculto pode ser uma inferência. A existência de uma estrutura de lavagem de dinheiro pode ser uma hipótese investigativa, a ser confirmada ou refutada por outros elementos de prova. Na pesquisa histórica, a lógica não é diferente. Um processo judicial de 1931 é um dado documental. A identificação de determinado defensor em uma fotografia pode ser uma inferência, mais ou menos segura conforme o número e a qualidade das fontes convergentes. A explicação sobre o efeito acústico das ronqueiras durante o confronto pode ser uma hipótese plausível, mas deve ser apresentada com a cautela própria das hipóteses ainda não testadas experimentalmente.
Essa disciplina intelectual é um dos pontos de contato entre o livro e os textos do Investigação Financeira. O objeto mudou; o método permaneceu reconhecível.

Cangaço como ORCRIM rural
Há ainda outro ponto de contato entre este espaço digital e o livro publicado. Um dos capítulos do livro examina o cangaço não apenas como fenômeno cultural ou memória sertaneja, mas como forma histórica de criminalidade organizada rural.
Essa abordagem não pretende transportar mecanicamente categorias jurídicas atuais para o passado. O cangaço não era “organização criminosa” no sentido técnico da Lei nº 12.850/2013, simplesmente porque essa categoria normativa não existia em 1927. Mas é possível observar, em termos analíticos, elementos estruturais próximos aos estudados em organizações criminosas contemporâneas: liderança estável, divisão de tarefas, uso sistemático da violência, redes de proteção, inteligência territorial, intimidação, saque, extorsão, sequestro, circulação regional e apoio logístico de terceiros.
Para quem estuda criminalidade econômica, esse deslocamento histórico é útil. Ele mostra que organizações criminosas não são apenas empresas clandestinas modernas, escondidas atrás de holdings, offshores, interpostas pessoas e contas bancárias. Elas também podem assumir formas territorializadas, violentas e rurais, nas quais o patrimônio é capturado diretamente pela força, pela ameaça e pelo medo. O que muda, em cada época, é a tecnologia disponível para capturar, ocultar, circular ou preservar riqueza ilícita; o que permanece é a racionalidade econômica do crime organizado. O bando armado que saqueia fazendas, extorque moradores, sequestra vítimas, controla rotas, mantém informantes e negocia proteção com poderes locais não está tão distante, em termos funcionais, da organização contemporânea que movimenta valores por empresas de fachada, operadores financeiros, contas de passagem e ativos em nome de terceiros. Em ambos os casos, há empreendimento criminoso dotado de estrutura, liderança, divisão de tarefas, continuidade operacional, rede de apoio e finalidade de obtenção de vantagem econômica.
Ademais, qualquer semelhança com as organizações criminosas ultraviolentas descritas pela Lei n. 15.358, de 24 de março de 2026, não é mera coincidência. A aproximação, evidentemente, deve ser feita com cautela histórica: Lampião e seu bando não poderiam ser juridicamente enquadrados em uma lei editada quase um século depois. Ainda assim, a leitura analítica é pertinente. O próprio livro sustenta que o ataque a Belém do Arrojado não revela a atuação de um “bandido social”, mas de uma organização criminosa rural, paramilitar, dedicada à prática de crimes interestaduais, ainda que inexistisse, em 1927, tipificação legal autônoma equivalente ao atual conceito de organização criminosa. Essa comparação ajuda a deslocar o olhar do folclore para a estrutura: menos a figura romântica do cangaceiro e mais o funcionamento concreto de uma empresa violenta de pilhagem, intimidação e domínio territorial.
Nesse sentido, o estudo do cangaço ajuda a perceber algo que a investigação financeira conhece bem: todo empreendimento criminoso precisa de recursos, logística, proteção, informação e capacidade de converter violência ou fraude em vantagem econômica.
A Volta da Asa Branca
Este site voltará ao seu tema principal da Investigação Financeira, mas esse desvio pelas picadas do sertão não foi uma interrupção completa do projeto intelectual do blog. Foi, antes, uma espécie de laboratório metodológico. Pesquisar a resistência civil de Belém do Arrojado exigiu lidar com problemas que também aparecem em investigações contemporâneas: fontes incompletas, versões divergentes, registros degradados, memória seletiva, documentos dispersos, identificação de pessoas, reconstrução espacial, análise de vínculos e necessidade de separar fato, inferência e hipótese.
Ao final, o livro não foi escrito para substituir a pesquisa acadêmica sobre o cangaço nem para encerrar a discussão sobre o episódio. Foi escrito para preservar uma memória pública, organizar fontes, explicitar o caminho da reconstrução e permitir que outras pessoas avancem a partir de um ponto mais seguro. Essa também é, em grande medida, a vocação deste blog: não oferecer respostas fáceis, mas organizar problemas complexos de modo que possam ser investigados com mais clareza.
O silêncio dos últimos meses, portanto, teve causa. Havia um livro sendo escrito, uma vila sendo reconstruída, nomes sendo confrontados, documentos sendo examinados e uma história local sendo retirada do risco de desaparecimento. Se você tiver interesse, pode adquirir seu exemplar a partir dos contatos dos autores, contidos emwww.apelejadelampiao.com.br. Neste site também consta uma amostra das fontes históricas consultadas e diversas ferramentas digitais que complementam a leitura.
Agora, com a peleja contada, é hora de voltar a seguir o dinheiro.
Referências:
(1) ESTRELA, Marcelo Duarte Guilherme; MARTINS, Tiago Misael de Jesus. A peleja de Lampião no Belém do Arrojado: resistência civil ao cangaço em Uiraúna/PB. 1. ed. Uiraúna, PB: Ed. dos Autores, 2026.
(2) MARTINS, Tiago Misael de Jesus. Prefácio. In: MOURA, Arthur. Gestão de Casos Complexos: Teoria e Gestão da Investigação Fiscal. 2 ed. Campina Grande: Ed. BANM, 2025.
(3) ECO, Umberto. Como se faz uma tese. São Paulo: Perspectiva, 2014.